Terapia da Fala? Não é muito cedo?

14:33



Hoje é o dia Nacional do Terapeuta da Fala e por isso quem vos escreve o post de hoje é a minha Terapeuta favorita, a Fátima Silva. Temos também um testemunho pessoal para dar neste tema, mas ainda não me fez sentido fazer essa partilha convosco. Mas este é um tema que vale muito a pena abordar e que merece a atenção de todos, pais e professores!

Terapia da Fala? Não é muito cedo?

Pela terapeuta Fátima Silva 
Quantas vezes tu, pai ou mãe, já disseste para ti mesmo “não é nada, com o tempo vai passar”. Aliás, quantas vezes já foste ao médico por uma qualquer questão tua e era só isso que querias ouvir? Que é normal, que não precisas de te preocupar? Quantas vezes o que queres ouvir da boca dos teus amigos é que são coisas da tua cabeça, que há tantas crianças como a tua ou frases como “o meu filho também era assim, depois parece que teve um click e agora fala pelos cotovelos”. Pois é… nós pais queremos que assim seja. Queremos que as coisas se resolvam por si só, que o tempo seja o nosso maior aliado. Mas às vezes as coisas não são exatamente como gostávamos que fossem. E isso não é necessariamente mau.
E é aqui que entra o terapeuta da fala na vida de muitas famílias. Nunca é cedo demais para conheceres um terapeuta da fala. Nunca é cedo demais para que um terapeuta da fala faça parte da tua vida e te ajude a lidar com aquilo que o tempo, sozinho, não consegue. Na verdade, se olhares para trás, consegues perceber como a linguagem e a comunicação se desenvolvem desde que pegaste o teu filho nos braços, desde o primeiro toque, o primeiro cheiro, desde que olharam um para o outro com sentimento de pertença, desde que o teu bebé reagiu pela primeira vez a um som do ambiente, ao timbre e à melodia na tua voz.
Por vezes, porém, este desenvolvimento não é aquele que se espera. Podemos pensar que é uma questão de cultura, de sociedade, das exigências do nosso tempo. Podemos. Mas que isto não nos descanse. Que este pensamento não nos deixe menos alerta para aquilo que tantas pessoas já estudaram acerca do desenvolvimento da linguagem. Apesar de sabermos que cada caso é um caso, que cada criança se desenvolve ao seu ritmo, sabemos também que há etapas fundamentais por que cada uma deve passar, numa determinada janela temporal, de forma a que a aquisição das diferentes competências seja o mais natural possível. Além disso, é demasiado evidente o impacto que uma dificuldade na linguagem, na fala ou na comunicação pode ter não só ao nível das aprendizagens como ao nível das relações que a criança estabelece no meio em que vive.
A gestão das expectativas da família quanto à necessidade da terapia da fala é muitas vezes um grande desafio para o terapeuta da fala. É preciso mostrar aos pais (e muitas vezes aos profissionais de educação e saúde que estão no processo) quais as etapas principais do desenvolvimento da linguagem, é preciso demonstrar que o facto de haver outras crianças a (não) falar da mesma forma não retira a necessidade de uma intervenção especializada com o filho deles. É preciso também gerir as nossas próprias expectativas e aceitar que a decisão da família é o que prevalece, desde que tenha sido uma decisão tomada em consciência, uma decisão informada e participada.
Felizmente já há imensa informação disseminada sobre os marcos de desenvolvimento linguístico, sobre sinais de alerta nas diferentes áreas que compõem o saber fazer do terapeuta da fala. Deixo aqui apenas três pistas para que estejas – um pouquinho mais – atento ao desenvolvimento do teu filho:
  1. Os marcos de desenvolvimento são atingidos mais ou menos na mesma idade por todas as crianças. Não é algo rígido, uns meses antes, uns meses depois, cada qual ao seu ritmo mas dentro da mesma janela temporal.
  2. É necessário que haja oportunidade para que o desenvolvimento se processe. Há tanto a fazer! Tanto que mostrar, tanto que brincar, tanto que experienciar, tanto que viver! É verdade que a realidade é diferente da nossa quando éramos crianças, mais diferente ainda da realidade dos nossos pais. Mas essa noção não deve servir para legitimar a nossa passividade, deixando os miúdos em frente à televisão ou em frente ao telemóvel horas sem fim. Há tempo para tudo. Também se aprende com jogos no tablet? Claro que sim! Também se aprende a ver desenhos animados na televisão? Claro que sim! Mas também se aprende a brincar com carrinhos, construções, bonecos, loucinhas, plasticina, jogos de tabuleiro; também se aprende a participar nas tarefas de casa; também se aprende a ouvir histórias e a recontar o dia antes de dormir; também se aprende a ajudar nas compras do supermercado, a visitar os amigos, a brincar no parque, a chapinhar nas poças de água, a apanhar folhas no outono, a sentir o cheiro da terra molhada. Não é uma visão romântica da vida! Há coisas tão simples e com um potencial tão grande!... Basta que estejamos atentos e disponíveis!
  3. Este é apenas um exemplo do que é esperado: entre os 3 e os 4 anos, o teu filho deve ser compreendido, na maior parte das vezes, por pessoas estranhas. Isto não quer dizer que ele tenha que ter um discurso igual ao de um adulto. Significa que as pessoas devem entendê-lo, mesmo com as possíveis trocas, distorções ou alterações nos sons que possa fazer. Sendo assim, consegues com certeza perceber que, para que uma criança seja bem entendida por qualquer pessoa no final dos seus 3 anos, há muitas etapas pelas quais tem que passar. Aqui não há saltos, não há truques. Há um desenvolvimento que deve fazer-se da forma mais harmoniosa possível.
Se achas que o teu filho está a precisar de ajuda, por mais pequena que ela te possa parecer, mesmo que outras pessoas à tua volta considerem que não há necessidade, não fiques na dúvida, consulta um terapeuta da fala!


Por Fátima Silva - Terapeuta da Fala - Linkedin


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