Sem filtros

20:21


A vida é complexa, mas a maternidade é talvez o auge da complexidade. Em cada passo dado parece haver um olhar a observar o caminho seguido e uma voz sempre pronta para dizer "Se fosse comigo..." e as mães vão criando filtros. Vão mostrando e falando apenas do que é bonito de se ver e de se sentir. Porque os olhares pesam e os dedos indicadores tocam e ferem. E em determinada altura começa a crescer uma culpa. A culpa de não se ser perfeita. A culpa de pensar que se as outras mães são capazes de fazer sempre tudo bem, nós também o deveríamos ser. Mas a verdade é só uma: Nenhuma mãe é sempre perfeita!

Eu até prezo pela alimentação saudável da miúda, cozinho, faço bolos caseiros e invento receitas sem açúcar. Eu até a deixo cozinhar comigo, meter a mão na massa e ter experiências sensoriais únicas. Eu deixo que ela me ajude em tarefas domésticas como estender ou dobrar roupa, limpar o pó ou aspirar e ela delira. Eu vou com ela para a rua apanhar folhas, mexer na terra. Muitas vezes lanchamos no jardim, de pernas cruzadas a apanhar o ar puro e a observar a natureza. Invento músicas. Pinto, faço legos, brinco aos médicos, às cozinheiras e passo horas sentada no chão da sala nesta vida. À noite leio uma história todos os dias. Leio, estudo e informo-me sempre que alguma coisa me parece menos bem. Quando alguma coisa corre menos bem tento usar o diálogo. Baixo-me ao nível dela e converso, explico. Já lhe pedi desculpas porque achei que o devia fazer. Levo-a ao parque, ao jardim e à praia...

Aos olhos de muitas mães sou a mãe perfeita. Mas o que elas não sabem é que há muitos dias em que a minha filha vai dormir sem tomar banho porque o meu nível de exaustão é tal que a energia já não chega para mais essa tarefa. O que elas não sabem é que muitas vezes o jantar é só um prato de sopa e uma peça de fruta porque a mãe que adora cozinhar tem dias em que também não lhe apetece. O que elas não sabem é que quando pedem coisas da escola, seja um trabalho, seja uma fotografia a minha filha é quase sempre a última a levar porque a mãe se esquece. O que elas não sabem é que esta mãe [nada] perfeita quase todos os dias lhe lava a cara à porta da escola com um toalhete porque se esquece de o fazer em condições, ainda em casa. O que elas não sabem é que esta mãe também fala alto e também diz que não. O que elas não sabem é que esta mãe não é nada perfeita simplesmente porque não existem mães perfeitas. Somos todas a melhor versão que podemos ser, cada uma à sua maneira. 

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