Gestação de Substituição #1

16:48


No dia 8 de Setembro fez-se história no nosso país ao ser aprovado o primeiro pedido de gestação de substituição. Tal como em 1986 a legalização da Procriação Medicamente Assistida [PMA] gerou muita polémica, agora não foi diferente. E ser o primeiro casal no país a usufruir desta lei tem um peso gigante na vida da Isabel e do Miguel. Para conseguirem gerir toda esta situação, com a tranquilidade necessária que toda a parentalidade necessita, optaram por se manter no anonimato. Contudo conheço este casal e conheço a história deles. A Isabel tem Endometriose, e tal como tantas outras mulheres com esta doença encontrou o seu refúgio na MulherEndo, associação da qual sou orgulhosamente presidente. E é por os conhecer e saber quem são que decidi dar-lhes voz, mantendo o que tanto prezam e necessitam, o anonimato.

Ao longo de todo este processo irei partilhando convosco as palavras deles, o lado deles, os sentimentos deles. Porque é fácil quem está desse lado, do lado de quem apenas lê notícias, apontar dedos, dizer que nunca faria tal coisa, dizer que esta criança vai sofrer... e eu quero provar-vos que não. Quero mostrar-vos que não!
 
Aos 30 anos, depois de uma longa luta contra a Endometriose e de alguns tratamentos de PMA a Isabel foi submetida a uma histerectomia total. Antes deste procedimento cirúrgico, que a levou a uma menopausa demasiado precoce, foi feita uma colheita de ovócitos, que ficaram congelados.


Como é que te sentiste no dia em que perdeste o teu útero, sem antes ter conseguido realizar o sonho de ser mãe? 

Isabel - Foi um misto de sensações. Por um lado a ânsia para que o sofrimento físico relacionado com a Endometriose terminasse e conseguisse ter qualidade de vida. Por outro, uma sensação de perda de feminilidade, virilidade e maternidade, pela perda do útero. Ao mesmo tempo estava serena, não fiquei nem revoltada nem angustiada, porque eu não ansiava por estar grávida, mas sim por ter um filho, e que não nascendo de mim porque a natureza assim o ditava, poderia nascer de outra pessoa, pois poderíamos recorrer à gestação de substituição (acabada de aprovar na altura) e assim ter à mesma o nosso filho tão desejado. 

Este filho vive dentro do meu coração há alguns uns anos, é alguém que nunca vi, que fisicamente não existe, mas que amo tanto... A aprovação da lei da gestação de substituição foi sem dúvida o alicerce que me deu resiliência, me permitiu ter a cabeça arrumada e aceitar sem rancor a realidade que a Endometriose ditou para a minha vida. 

Uma das questões que leio com muita frequência nos comentários às notícias sobre o vosso caso, prende-se com o porquê de não recorrerem à adopção, uma vez que existem muitas crianças institucionalizadas. Não ponderaram a adopção? 

Isabel - A adopção foi ponderada e até foi a nossa primeira opção. Sempre tive em mente adoptar, mesmo que tivesse um filho biológico. Infelizmente por motivos que agora não quero expor, mas que se prendem com a questão laboral e económica, tudo apontava que não seriamos candidatos para adopção de uma criança em Portugal, para além de que já acompanhámos muitos casos e acaba sempre por ser um processo muito demorado. Lançámo-nos para a possibilidade da adopção internacional, mas após contactar os meios legais existentes informaram-nos que o processo de adopção internacional tem um custo que varia entre 10 a 15 mil euros, e neste momento das nossas vida tal seria impensável. A gestação veio dar-nos esperança e força para não desistirmos do nosso sonho!

Tal como aconteceu quando surgiram os primeiros tratamentos de PMA, existe neste momento muito desconhecimento e algum preconceito sobre a gestação de substituição. Que peso está a ter nas vossas vidas, serem o primeiro casal em Portugal, a usar este método?

Isabel - No nosso círculo íntimo, o peso não é nenhum, pois foi uma decisão muito ponderada, discutida em família pelas pessoas afectas a nós. Temos total apoio dos nossos familiares e amigos mais próximos. Agora não descuramos a responsabilidade e peso que emana de sermos os primeiros. Sabemos que muitos julgam a nossa decisão de recorrer a esta técnica de reprodução humana. Mas esta é a nossa vontade! Este é o nosso sonho! Este é o nosso amor. E porque isto é algo que só diz respeito a nós, e para não nos magoarmos com os comentários que várias pessoas teimam em tecer, decidimos não entrar em mediatismos, não dar a cara, e manter-nos à margem de tudo o que se vai falando, produzindo, e especulando. Acredito que temos o dever de ir dando algum feedback sobre o processo de forma, também para ajudar e a dar algum alento aos casais que estão na mesma situação que nós e que depositam no nosso sucesso e na nossa coragem e vontade o impulso e a luz ao fundo do túnel, para o desejo tão grande que temos em comum que é o de sermos pais!

Não têm medo que um dia mais tarde o vosso filho sofra represálias ou seja vítima de algum tipo de descriminação?

Isabel - Não! Crescerá a saber a sua história. Saberá o imenso amor existente em cada uma das nossas lutas. Tanto pode ser gozado pela forma como nasceu, como por usar óculos, por ser rechonchudo, por ser muito alto ou muito baixo. As crianças são sinceras, toda a vida assim foi e será, resta-nos esperar que os pais dos amiguinhos dele eduquem os seus filhos com base no amor e no respeito pelo próximo. Se for o caso de ser uma criança vítima de bullying excessivo, quando chegar a altura, então teremos de lidar com isso e pedir ajuda se houver essa necessidade. Mas se há algo em todo o meu percurso de doença e de infertilidade que temos tentado fazer é não sofrer por antecipação. Deixar o tempo rolar e vivenciar cada conquista e cada derrota passo a passo. A única certeza que tenho é que familiarmente será muito amado, e para nós pais, agora essa certeza é tudo o que nos basta!

Obrigada Isabel e Miguel. Sabem que estou convosco ♥

Esta foi a minha primeira conversa com a Isabel, sei que teremos muitas mais porque as dúvidas à volta de todo este processo assim o imperam. A vós, que me lêem, deixo o repto de deixarem os vossos comentários e as vossas questões [mantendo sempre o registo que até hoje tem imperado neste espaço! Por favor!] que poderão ser respondidas num próximo artigo. Para responder também a algumas dúvidas sobre todo o processo médico irei trazer alguns especialistas no assunto, bem como um Pediatra que nos responderá a algumas questões!

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5 comentários

  1. Tenho dificuldade em perceber este tipo de decisão, este caminho de concepção, mas talvez, apenas e só porque nunca quis assim tão desesperadamente ser mãe.
    Ainda assim, não sou ninguém para criticar ou julgar. Cada um toma as suas opções (dentro daquilo que a lei permite).
    Cada vez mais percebo que, infelizmente, a adopção não é uma opção em Portugal. Tudo é dificultado nesses processos...

    Não vejo quaisquer motivos para criança sofrer discriminação ou represálias, até porque não vejo motivo para que se saiba por que via foi ou não gerado. Não tem de ser assunto, pronto.

    Desejo-lhes toda a sorte neste tão grande desejo de serem pais.

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  2. Boa sorte Isabel e Miguel!
    Nós tínhamos pensado na maternidade de substituição fora de Portugal (antes da aprovação da nova lei) mas optámos pela adopção em Portugal! Temos um filho maravilhoso, dias fáceis e outros complicados, como todos os pais...
    Tendo em conta o número de crianças devolvidas no período de pré-adopção, se calhar deviam ser bem mais exigentes.

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    1. Obrigada! É verdade. Infelizmente hà muitas crianças devolvidas. Mas não compreendo a questão monetária ser impeditivo, eu não sou rica,mas temos nossas continhas mensais todas ok, sem nunca ter tido algum incumprimento, mas não tenho um saldo bancário com um mealheiro. Acho que sou como a maiora dos portugueses. Mas pronto, também é verdade que estas exigências depende da área onde vivemos e dos técnicos que ficam com o processo. Parabéns pelo vosso filho. Por terem conseguido a vossa "estrelinha".

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  3. Eu tambem tenho endometriose e o que queria mais no mundo era ser mãe biologica. Odiava que me dissessem para adoptar, essa era uma decisão minha.
    Força Isabel!! Força! Tens as pessoas certas à tua volta!
    Acabei por receber em minha casa duas crianças durante 1 ano pk a mãe emigrou para pagar dividas e nesse intremedio fiz FIV e consegui a minha filha.
    Ou seja, contando bem são 3.❤❤

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