O karma da falta de sono

16:40


Lembro-me de ser miúda e de quando chegava a hora da sesta ficar o quarto a olhar para o tecto a fingir que dormia. Mais tarde, já na escola primária, o hábito da falsa sesta mantinha-se e eu ficava no quarto, às escuras, a fazer os trabalhos para depois ter mais tempo para brincar. Não me lembro de protestar a dizer que não queria dormir, mas lembro-me de nunca dormir nem dar parte fraca. 

Como o karma é tramado calhou-me na rifa uma filha que, desde bebé, acha que dormir é perda de tempo. Com a entrada na escola em Janeiro, e porque não teve outro remédio, começou a fazer sestas depois de almoço, mas quando começa a ficar muitos dias seguidos em casa vai tentando que nos esqueçamos deste hábito. E eu juro que esquecia, não fosse ela depois mais para o fim da tarde começar a ficar possuída por birras de cansaço. O descanso faz-lhe mesmo falta. Ela é que ainda não percebeu [assim como quando eu era miúda não percebia!].

Como uma viagem de carro costuma ser uma boa amiga para adormecer, depois de almoço enfiei-a no carro. Fomos a uma loja, andou feliz e contente com o cesto das compras para trás e para a frente e depois regressámos. Já estava quase a ceder ao cansaço quando começa a berrar que estava muito aflita para fazer xixi. E pronto, o meu plano foi por água a baixo. Regressámos a casa e disse-lhe que depois de ir à casa de banho ia dormir uma sesta. Protestou, disse que não precisava, que não era de noite e usou todos os argumentos que os três anos lhe permitem. Pediu para comer figos. Comeu figos e disse-lhe que não havia mais nada a seguir a não ser uma sesta. Fomos para o quarto e quis uma história. Li a história pacientemente e depois deitei-me com ela na cama. Fechei a janela, apaguei a luz e encostei a porta. Começou a cantar com aquele ar de gozo que tanto me tira do sério como me dá vontade de rir. Mandei-a calar porque eu tinha sono e queria dormir. Pediu água. Tinha muita muita sede. E como água não se nega a ninguém e ela não se ia calar, lá me levantei para ir buscar água. Bebeu água e voltou a deitar-se. Começou a enfiar-me os dedos nos olhos e novamente a argumentar que não era de noite e não queria dormir. Pediu mais água. Bebeu mais água. 1h20 minutos depois de termos regressado a casa cedeu e adormeceu. Agora se for preciso dorme até às 18h00.

Diz que o karma é lixado e é bem verdade, mas o meu karma veio refinado porque eu não dormia, mas também não protestava e não infernizava a vidinha a ninguém!


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