As voltas da vida!

22:37


Há precisamente um ano estava a fazer as malas e o que me esperava era tudo menos uma semana de férias. Se até àquele dia nunca tinha sentido medo ali foi diferente. As complicações em cirurgias de Endometriose são muito raras [desde que os médicos saibam o que estão a fazer!] e felizmente não conheço nenhum caso que tenha terminado no bloco operatório. Mas quando se tem uma filha nos braços, com menos de dois anos, é inevitável não ter medo. É inevitável não pensar "e se alguma coisa corre mal e eu não volto a acordar?". Como será a vida dela? Estará ela preparada para viver sem mim? 

Sei que não seria a primeira nem seria a única, tenho plena confiança que o pai daria conta do recado, com mais fatos de treino e menos laços, mas sempre com muito amor, e sei que a rede que nos suporta não lhe fecharia os braços. Mas o meu coração de mãe foi pequeno. Por ela. Por mim. Por nós.

Quando a decisão de fazer esta cirurgia foi tomada em conjunto com o meu médico, sabia e tinha a consciência de que era o melhor para mim, para a situação grave em que se encontrava a minha Endometriose e para evitar complicações maiores no futuro. Mas foi também das decisões mais difíceis que tomei até hoje. A verdade é que mesmo sabendo que foi a decisão acertada, há dias em que ainda me custa a acreditar que há um vazio dentro de mim e que não poderei mais gerar vida dentro do meu corpo. E o que custa mais ainda a aceitar é que mesmo depois de uma cirurgia complicada, de vários dias de internamento, de mais de um mês de recuperação e de fisioterapia, ainda não estou a 100%. Será que algum dia ficarei?!

Sou e sempre fui uma pessoa positiva, que consegue rir e fazer humor negro com tudo o que esta doença envolve e nunca fui narcisista ao ponto de me focar apenas nisto e de deixar de ser grata por tudo o que de bom a vida me dá. Mas há dias, como qualquer ser humano, em que também eu baixo a guarda, em que também eu preciso de colo, em que também eu choro e em que também eu preciso de um porto de abrigo que me diga "estou e estarei aqui, independentemente de tudo!".

Como em tudo na vida acho que só quem passa pelas situações consegue avaliar o peso que elas comportam e mesmo assim, é sempre relativo e muito pessoal. Porque a forma como cada um de nós sente determinada situação tem muito a ver com o nosso Eu e com as nossas vivências e experiências anteriores. Sei que não é o facto de não poder ter mais filhos biológicos que me impede de ter mais filhos, mas sei também que a adopção [que já tantas vezes me foi sugerida!] não é como ir ali ao supermercado. E não pode nunca ser uma forma de compensar seja o que for.

Enquanto presidente da Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose passo os dias a dizer que é possível, a transmitir a mensagem de que somos capazes, de que conseguimos superar tudo.  E acredito mesmo nisso. Mas eu também sei que Viver com Endometriose não é fácil. Não só pelas sequelas que ela deixa no nosso corpo, não só pelos sonhos que nos faz deixar pelo caminho mas também porque vivemos ainda numa sociedade com pouca consciência e com pouca sensibilidade sobre esta realidade. E se houve uma coisa que a menopausa precoce me trouxe foi falta de paciência para pessoas sem noção e que falam do que não sabem com ar desdém, porque afinal "não se morre de Endometriose!".

Não posso terminar este desabafo sem agradecer a quem, independentemente de tudo, está sempre aqui, ao meu lado, e a quem mesmo não compreendendo totalmente o que tudo isto implica sabe estar presente e sabe abraçar com um sorriso ou com uma palavra de conforto. Obrigada ♥

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4 comentários

  1. Olá Susana, que blogue tão bonito. Não nos conhecemos pessoalmente, mas a Susana foi uma grande ajuda quando a minha maldita doença voltou e eu tive de ser novamente operada. Encontrou-me através do meu blogue e deu-me as palavras certas, na altura certa, num momento em que tive muito medo... O meu filho mais novo tinha pouco mais de um ano... Graças a si cheguei à Dra. Fátima e graças a ela tive a minha filha, um verdadeiro milagre nas palavras da doutora, tal como os meus outros dois filhos, para uma mulher que tem endometriose como eu. Gostei muito de chegar a este blogue e vou seguir. Um beijinho. E obrigada por toda a força e luta contra esta doença!

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  2. Deus sabe o que faz e se ele não quer que volte a ser mãe é por alguma razão mas pode adotar ser mãe não é preciso que a criança sai de nós

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  3. Concordo plenamente menos no Deus sabe o que faz Rita ele as vezes também erra,Susana podia adotar eu fui mãe de um lindo rapaz mas correu tão mal que mesmo podendo não quis ter mais nenhum mas sou mãe de acolhimento de duas lindas meninas gêmeas e estou a fazer tudo por tudo para as adotar.
    Faça o mesmo Susana há tantas crianças que precisam de amor e pelo que parece a Susana tem muito amor para dar.
    Nós não podemos ser egoístas e devemos fazer crianças felizes e ao adotar ficamos nos e elas.
    Acredito que a sua menina ia adorar um irmãozinho ou irmãzinha ...pense nisso bjs

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