Há dias...

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Há dias em que acho que não vou aguentar. Em que acho que estou a fazer tudo errado.
Há dias em que sinto que durante o dia não lhe consigo dar a devida atenção. Em que penso se não seria melhor ela estar no infantário para ser mais estimulada e ter crianças para brincar. 
Há dias em que percebo que ela não tem rotinas. Tem de seguir as minhas. E há dias em que nem eu as consigo ter!
Há dias em que perco a paciência, porque só queria atender um cliente, falar ao telefone ou ir ao site do banco em silêncio e concentrada. Há dias em que me sinto culpada quando perco a paciência. Afinal, a culpa não é dela. Ela só quer conversar, interagir e ter a minha atenção. Nem sempre percebe porque é que a tem de dividir ou de ficar sozinha na sala de brincar. 
Há dias em que não me apetece pensar no que vai ser o almoço e levar preparado ou ter de o fazer. Eu comia bem uma peça de fruta e ficava 1h00 em silêncio, a olhar pela janela. 
Há dias em que penso que não vou aguentar nem mais uma semana. Que o meu corpo está a ceder. Está a ficar cansado e eu estou a ficar sem forças. 
Há dias em que até adormece e a consigo deitar. Mas há dias em que atendo telefone, atendo clientes, e faço todo o meu trabalho com ela assim, a dormir agarrada ao meu peito ou sentada no chão junto às minhas pernas. Há dias perfeitos. Mas há dias do diabo. 
Sei que não faço tudo certo. Ninguém faz. Mas há dias em que ponho tudo em causa e acho que estou a fazer mesmo tudo errado!

Mas há dias em que deixo de ser parva e percebo que no fundo no fundo ela é uma privilegiada e que tudo o que temos passado são aprendizagens tão ou mais válidas do que as que faria num infantário. Há dias em que percebo que apesar do cansaço vai chegar o dia em que vou sentir falta de estar ao telefone com ela a gritar "cocó, cocó" ou com ela a arrotar a alto e bom som. Há dias em que percebo que os dias vão ficar muito mais longos e que vão custar muito mais a passar. Há dias em que percebo que o escritório vai perder vida, vai perder cor e som. Há dias em que percebo que daqui a pouco tempo ela já não vai escolher o meu peito para dormir. Que já não serei eu a controlar tudo o que ela come e que já não serei eu a dar o beijinho e o abraço em todas as quedas e tropeções. Há dias em que sei que vou sentir falta de cada um destes desafios que muitas vezes me desgastam e sei que mais tarde ou mais cedo teremos de percorrer outros caminhos, por mim e por ela. 
Há dias em que me deito de corpo cansado mas de alma cheia e plena e com a certeza de que tanto ela como eu somos umas privilegiadas por nos termos tão próximas e tão cúmplices! 



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