Dos dias em que a mente precisa de descanso...

11:53


Quando decidi desafiar um grupo de amigas para fundarmos a Associação do meu coração, vivia a Endometriose de uma forma muito própria, muito intensa e muito especial. Tinha [ainda tenho] em mim uma vontade gigante de fazer a diferença e de mostrar a este país a existência de uma doença que dói e não se cura. De uma doença que magoa, que marca e que deixa um rasto cravado em quase todos os corpos por onde vai passando. 

Com o passar do tempo fui conhecendo centenas de mulheres com histórias complexas, algumas verdadeiramente dramáticas e cada uma delas deixou uma marca em mim. Como se eu tivesse vivido, para além da minha própria história, também um pedacinho de cada uma de todas as outras. Nem sempre me consigo envolver da mesma forma em todos os casos. É impossível. E às vezes não quero mesmo, porque trago em mim a consciência de que para fazer seguir o barco não é possível carregar [emocionalmente] cada um dos dramas que me chegam. O meu corpo não aguenta.  

Mesmo assim, há semanas em que a minha mente me pede um reset. Há semanas em que a Endometriose não pode entrar. Há semanas em que eu preciso esquecer que tenho uma doença crónica. Há semanas em que eu preciso esquecer que tenho uma filha, mulher, que poderá vir a desenvolver esta doença, muito em parte por causa dos genes que lhe transmiti. Há semanas em que preciso esquecer que a Endometriose é uma porcaria. Há semanas em que preciso esquecer que tenho amigas com a vida completamente lixada por causa desta merda. Há semanas em que preciso esquecer. Porque às vezes é preciso esquecer durante uns dias para depois poder continuar. E nas últimas semanas foi assim. Os e-mails acumularam. As mensagens não foram respondidas. O site não foi actualizado. O telemóvel esteve desligado. Porque há semanas em que eu preciso mesmo de fazer reset e esquecer que neste mundo existe uma doença chamada Endometriose. 

Há semanas em que preciso de me encontrar comigo mesma e com os meus e focar todas as minhas energias no lado bom da vida e nas coisas que me trazem mais sorrisos e mais tranquilidade. Há semanas que preciso que sejam minhas e em que eu [e os meus] sejamos as únicas prioridades. Há semanas em que depois de oito horas de trabalho [que me paga as contas!] só me apetece rumar a casa, tomar um banho divertido com a minha filha, inventar algo saboroso para o jantar e sentar-me no sofá. Sem pensar em mais nada. Há semanas em que a pele de voluntária, boa samaritana [o que quiserem chamar!] não pode mesmo ser vestida. Porque a pele de pessoa normal, comum, mãe, esposa, filha, dona de casa e de mulher que gosta de escrever e criar é a que tem de prevalecer, acima de tudo! 

E quando estas semanas [de maior recolhimento] passam, regressa a garra e a vontade de fazer mais e melhor. Porque afinal, às vezes é preciso parar [e recuar!] para se poder avançar!



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3 comentários

  1. Adorei o texto!
    Sinto muito isso, que preciso afastar-me para revitalizar :-)
    Fico a aguardar novidades!
    Beijo,
    Ana

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  2. Adorei o texto!
    Sinto muito isso, que preciso afastar-me para revitalizar :-)
    Fico a aguardar novidades!
    Beijo,
    Ana

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  3. Tão sincero e puro... Todos nós precisamos de parar para olhar para dentro, tomar conta de nós, reforçar as defesas e treinar a força! Só parando como se o Mundo também parasse de girar! Colocar o filtro e só os sorrisos entram e o silêncio cobre-nos com calma! É preciso tudo isto para aguentar, para arrancar, para vencer... É preciso hibernar!
    Um beijinho,

    Ni

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