Há quem chame a isto de egoísmo. Eu chamo de auto-preservação.

16:12


Estou há mais de um ano e meio em casa. Primeiro foi a gravidez de risco que me roubou à rotina dos dias e me atirou para o sofá. Depois, quando Baby B. nasceu decidi tirar a licença máxima para ficar com ela. E quando a licença terminou achei que ainda não era hora de nos separarmos tantas horas durante o dia e de ela ir para um infantário e eu regressar ao trabalho. Ficámos em casa. E ainda nos restam precisamente 15 dias deste nosso ano maravilhoso. Sou uma privilegiada porque pude fazer esta escolha. Sou uma privilegiada porque em Setembro tenho o meu emprego à minha espera. Sei que poucas pessoas podem dizer o mesmo. Mas já que era possível decidi agarrar a oportunidade. 

Ao longo destes meses todos, mesmo durante a gravidez de risco, houve um trabalho que nunca deixei de fazer, o da Associação. Quando fundei a MulherEndo tinha consciência do compromisso que estava a assumir e sempre soube que se eu parasse, neste momento, mais ninguém levava o barco a bom porto [ou a porto algum!]. Durante todos estes largos meses, não houve dia nenhum em que desligasse por completo das minhas obrigações. Lembro-me perfeitamente de estar deitada na cama do hospital e estar a responder a pedidos de ajuda. E lembro-me também que durante muitos dias me angustiava o facto de não ter tempo para fazer este meu trabalho [é estranho quando um trabalho que fazemos 100% voluntariamente nos angustia mais por não ser feito do que o trabalho que nos põe comida na mesa!]. 

Durante todos estes meses foram muitos os dias em que a minha rotina foi gerida para aproveitar cada segundo que a princesa dormisse para poder trabalhar na Associação, para poder responder a mails, a mensagens, a pedidos de ajuda, retribuir telefonemas, organizar eventos... E mesmo assim o tempo nunca chegou para os objetivos a que me propus e para a exigência da sociedade. Tenho consciência que roubei muitas idas à praia e ao parque à minha filha e que lhe roubei convívios com outras pessoas, apenas para poder aproveitar cada segundo das sestas dela feitas em casa, em silêncio para trabalhar. Tenho consciência que me roubei a mim, muitas horas de sono para o mesmo efeito. Já para não falar de outros projectos pessoais que foram ficando na gaveta e sendo adiados... este blogue, que esteve meses e meses às moscas [e o que eu gosto de escrever! E quanto me faz bem escrever!]; o meu livro, o meu querido livro que há mais de um ano não passa do segundo capítulo... [e tenho a história toda na minha cabeça...]. Tenho consciência que também o pai saiu prejudicado nesta equação porque em vez de aproveitarmos os momentos a dois eu aproveitava a maioria deles para trabalhar. E mesmo assim... nunca conseguia fazer tudo o que era preciso! Pedi ajuda, criei uma equipa, mobilizei pessoas. Mas todas as pessoas têm a sua vida, o seu projecto pessoal, as suas famílias, os seus empregos. E este não é um projecto delas. É apenas um projecto que acolhem e acarinham. Apesar de tudo, consegui mais e melhores resultados. Mas mesmo assim, o meu tempo nunca chegava para tudo. E isso sempre me angustiou, e muito! 

A semana passada recebi um abanão. Uma conversa sincera com o pai da casa que estava seriamente preocupado comigo, com a minha saúde, com o meu bem-estar físico, mental e psicológico e com o facto de não se conseguir encontrar uma explicação médica para alguns sintomas físicos que surgiram nos últimos meses. A verdade é que ele fez com que me caísse a ficha! 

Em Setembro regresso ao meu emprego remunerado, e estou cansada! Física e psicologicamente cansada. Sabem aquele cansaço de quando temos o cérebro sempre a mil à hora? Aquele cansaço de quem até quando está na casa de banho tem de levar o computador para aproveitar todos os segundos? Aquele cansaço de quem acorda às 4h00 da madrugada para amamentar e aproveita para responder a três ou quatro e-mails?! Aquele cansaço de quem está 24h ligado ao mundo e sempre a dar respostas?

E porque me sinto assim, e porque sei que o mais que tudo tem razão quando diz que chega de pôr todas as pessoas à minha frente, que decidi tirar 15 dias de férias da Associação. Não vejo mails, desliguei o telemóvel, desliguei a conta de facebook e não quero saber de nada. Absolutamente NADA até dia 1 de Setembro! Durante estes dias vou fingir que a Endometriose não existe!

Durante estes 15 dias quero saber apenas de mim, da minha filha, das nossas brincadeiras, dos nossos passeios, das nossas sessões de dança... da nossa família e do nosso bem-estar! Até dia 1 de Setembro apenas nós importamos. Para a semana o pai junta-se a nós numa semana de férias e vamos aproveitar para passear, comer uns gelados, dar uns mergulhos e ser felizes! Apenas e só isso!

Há quem chame a isto de egoísmo. Eu chamo de auto-preservação. Quando o corpo fala e pede nós temos de o escutar... 

... E chamo de amor, o facto de termos alguém que se preocupa verdadeiramente connosco, quando nós só nos preocupamos com os outros. Obrigada ♥

Um beijinho a quem está desse lado!



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5 comentários

  1. Parece-me muito bem. Todos precisamos de descansar, de desligar. Todos nós nos devíamos pôr em primeiro lugar, sem egoísmos. Só quando estamos bem é que conseguimos fazer o bem pelos outros.
    Vai lá, aproveita e recupera forças! Goza muito a tua filha! :)

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  2. Aproveita ao máximo porque o que não viveres hoje, amanhã já era... Tudo de bom ☺ Beijinhos

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  3. Aproveita ao máximo porque o que não viveres hoje, amanhã já era... Tudo de bom ☺ Beijinhos

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  4. Aproveita ao máximo porque o que não viveres hoje, amanhã já era... Tudo de bom ☺ Beijinhos

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  5. A mim não me parece bem, parece-me obrigatório, parece-me tão importante quanto dormir de noite (coisa que tb ainda não fazes...) e estar fresca para o dia seguinte. E embora devas seguir em frente com o teu projeto, um projeto que já é de tantas de nós, o projeto mais importante da tua vida está aí ao teu lado, é a tua família! :) Conserva-a bem juntinho a ti, bem dentro de ti, porque só com ela vais conseguir continuar a lutar ;)
    Beijinho grande *

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