O dia em que a vida muda para sempre ♥

11:23



E no passado dia 24 de Agosto, de forma inesperada as nossas vidas mudaram para sempre. Como sempre, os planos que fazemos correm sempre ao contrário. Tínhamos consulta marcada para o dia seguinte, no hospital onde existe equipa de Endometriose e onde tencionávamos ter o parto para que tudo estivesse assegurado. Mas a princesa quis nascer num Domingo de sol maravilhoso e enquanto a mãe estava sentada no sofá entretida a jogar as águas rebentaram. 

Por questões de segurança optámos por não fazer uma viagem de 130Km com as águas rebentadas e fomos para o hospital de Leiria. Já sabíamos à partida que nos esperava uma cesariana, porque a princesa estava muito bem sentadinha e num quadro como o meu não é aconselhável um parto pélvico e a possibilidade de versão externa já tinha sido posta de lado. 

As emoções estavam ao rubro... por um lado era certo que aquele seria o dia do primeiro encontro, olhos nos olhos. Por outro, o medo de que alguma coisa corresse menos bem durante a cirurgia esteve sempre presente!

Depois da entrada no hospital seguiram-se longas horas a soro e ligada ao CTG. Tinha-me refastelado com um belo pequeno almoço uma hora antes das águas rebentarem e era preciso estar em jejum. Se há alturas em que o tempo não passa e os ponteiros do relógio não se movem... esta foi uma delas! Felizmente estivemos instaladas num bloco de partos com a companhia do pai. Entre uma contracção e outra, algumas brincadeiras, umas fotografias para a posteridade e lá se chegaram as 17h00. 

Seguiu-se uma reviravolta de mãos e trocas de camas e macas e quando dei por mim estava no bloco operatório rodeada de uma imensidão de pessoas simpáticas. Todas se apresentaram e me disseram qual o seu papel naquele momento. Neste momento tive uma descarga de adrenalina e o meu corpo começou a tremer desalmadamente sem que eu tivesse controle sobre ele. Não podíamos facilitar a vida ao anestesista que nos queria dar a epidural, não é?

A muito custo e com muitas mãos a segurarem-me lá foi possível receber a anestesia e de um momento para o outro deixei de sentir a parte de baixo do meu corpo e os médicos aproximaram-se. Enquanto me cortavam [não dói absolutamente nada mas sente-se literalmente tudo] tinha ao meu lado a pediatra pronta para receber a minha filha. Em menos de nada senti que a arrancavam de mim... não consigo definir esta sensação... apenas sei que, tal como naquele momento, quando me recordo as lágrimas me inundam os olhos. Não era para ser assim... mas sei que teve de ser...

Não a consegui ver... apenas me tocaram com a cabeça dela na minha e me disseram "já está cá fora!" E levaram-na para outra sala! É impossível transmitir a angustia que sentia naquele momento... ali deitada, de braços presos e barriga aberta, as lágrimas corriam pelos olhos, enquanto olhava para a outra sala e tentava perceber o que faziam com a minha filha... sei que a pesaram, vestiram, mas não sei mais nada... sei apenas que tal como eu chorava desalmadamente! 

Enquanto tentava perceber o que se passava na sala ao lado, tentava também perceber o que se passava dentro de mim... ouvia os médicos a falar e a dizerem "isto é só aderências...", "temos de descolar esta trompa e este ovário do útero...". E no meio das lágrimas e dos soluços consegui dizer "por favor não me tirem nada..." Os médicos foram queridos e vinham alternadamente até à minha cara falar comigo e tranquilizar-me... disseram-me que me deixavam "as peças todas" mas que tinham mesmo de limpar... não podiam fechar-me naquele estado!

Entretanto, a pediatra chegou com o meu maior tesouro nos braços... o mundo parou... tudo à volta deixou de interessar... ficámos ali as duas a namorar... cara com cara... olhos com olhos... ela serena finalmente, a agarrar-me a cara e eu a chorar! Queria pega-la, queria pô-la junto ao meu corpo... queria dar-lhe o meu peito... mas continuava presa a uma mesa e de barriga aberta... 

O nosso namoro demorou apenas uns breves instantes e a pediatra disse-me que tinham de sair... que iam ter com pai. Por um lado, o meu coração sossegou... finalmente um de nós ia pegar nela... por outro... seguiram-se mais duas longas horas até que a pudesse ver novamente... 

Não foi de todo o parto que idealizámos... não consigo sequer chamar-lhe parto! Mas tento acreditar que não estava nas nossas mãos que o nosso primeiro encontro fosse mágico! Há momentos na vida em que o caminho a percorrer é o da aceitação. Aconteceu assim, tinha de ser assim... agora é seguir em frente e aproveitar todo o amor que nos une o mais possível! 

Sei que para muitas mulheres este é o nascimento que mais desejam para os seus filhos, mais rápido, mais controlado... e só posso respeitar isso! Mas somos todos diferentes, vivemos todos experiências semelhantes de formas diferentes, e eu queria, eu sonhei... com um parto natural humanizado. No entanto, sei reconhecer que tive pessoas maravilhosas, queridas e atenciosas à minha volta que no meio de um cenário que nos desagradava, tentaram que tudo corresse o mais harmoniosamente possível ♥ 

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7 comentários

  1. Minha querida, emocionei-me muito a ler a tua historia! tambem eu sonho com um parto vaginal, embora ainda esteja a ponderar a epidural... Um boa amiga deu-me um conselho que no nosso caso é muito valioso: sonhar e fazer planos sim, mas manter uma flexibilidade mental absoluta para nada acontecer como sonhámos. E assim nunca existirã desilusões. Do que relataste, o que mais me custou ler foi que não pudeste estar com a tua filha imediatamente a seguir ao nascimento, o tal encontro mágico. Mas vejo que rapidamente te adaptaste a outras circunstâncias e a verdade é que a maior beleza de tudo é que ela já cá está fora, com saúde, tua e dela. Haverá milhares de momentos mágicos daqui para a frente, e o maior sonho de todos realizado, o de seres mamã contra todas as probabilidades e dificuldades. Muitos parabéns, do fundo do coração! Carla F.

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  2. Eu optei por uma cesariana, mas não foi por ser mais rápido e controlado, mas sim por motivos pessoais. É uma intervenção muito mais agressiva à partida e a recuperação demora um pouco mais ainda que no meu caso tenha corrido bastante bem. Ao contrário de ti, não só senti tudo como me doeu bastante. Deram-me mais anestesia a meio porque parecia que estava no talho. Contudo, depois foi tudo muito rápido. Quando nasceu encostaram-mo a mim, depois ele foi com o pai e a enfermeira limpar e vestir e não demorou muito a ser fechada e a ficar junto dele a mamar. Entre epidural, nascimento e recobro, foi cerca de uma hora. Talvez por ter sido uma decisão minha, senti um grande alívio de correr tudo bem e não fiquei "traumatizada" mas para quem tem a expectativa de um parto natural compreendo que seja muito violento. No fundo, é uma cirurgia, mas tem a parte muito boa de nos trazer um filho :) Muitas felicidades!

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  3. é com lagrimas nos olhos que escrevo: muitos parabéns, és a força para todas nós!
    Sonhar e continuar a sonhar.... Eu já sou mãe, graças a Deus na altura ainda não se falava da endometriose, mas o desejo de dar um irmão, ficou só mesmo pelo desejo, pois após os exames de fertilidade fiquei a saber q o parto seria muito complicado e poderia pôr a minha vida ou a do bebe em risco :(
    Após ler o teu testemunho, vejo o quanto foi difícil.... ainda bem q estás bem e a bebé também. um beijo grande desta endoamiga

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  4. Após ler esta linda historia de amor fez-me relembrar emocões passadas á 15 anos atrás,são imagens e sensações que nunca mais vou esquecer,o 1° toque,o 1°olhar,a 1°mamada apesar de muito dolorosa mas que guardo com muita saudade :-)
    Que a vossa princesa vos dê muitas alegrias e que seja super saúdavel,muitas felicidades pra essa familia maravilhosa
    Beijinho grande <3

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  5. Ola Susana ☺ impossível não ficar emocionada. Tive a minha princesa à quase 7anos e após 12horas de trabalho de parto e 3epidurais que nao fizeram efeito, lá tive a minha princesa de parto normal e sempre com a ajuda de 2obstetras top top ☺ na altura ainda nao tinha o diagnóstico de endometriose. Quando ela tinha 5anos começamos a tentar ter um segundo filho e foi aí que se detetou a doença, desde então tem sido um autêntico carrossel. Se conseguir engravidar e levar a gravidez avante o que me deixa mais reticente é mesmo o parto... mas depois de ler o testemunho ganhei logo outro alento. Obrigada ☺♡

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  6. Li agora este relato e o parto normal nem sempre é diferente.... não é que eu não seja defensora do parto normal e não optasse de novo por parto normal mas às vezes as coisas simplesmente não são como nós imaginamos... a minha C mais velha nasceu de parto normal e o relato não foi muito diferente do seu.... eu estive em trabalho de parto (não à espera da dilatação, a fazer força para expulsar a pequenina) durante cerca de 3horas e por isso a dose da epidural já tinha sido reforçada, logo não tive essa sensação de sentir... não é melhor não sentir (da 2ª senti e pelo menos sabemos o que está a acontecer),,, e quando finalmente ela nasceu eu nem a vi...nem tive perceção de ela ter nascido e só quando retiraram a placenta é que eu perguntei "é ela?" ao que me responderam que ela já tinha nascido uns largos minutos antes... "e ela não chora?".... "há-de chorar...."mas até ela chorar eu estive numa angustiante espera sem saber se estava bem, se era perfeita, se estava viva...estava a ser reanimada na sala ao lado e o pai a quem tinham pedido para sair antes eu nem sabia onde andava.... foram 5, 10, 15 minutos sei lá, pareceram-me horas de horror!!!! Felizmente conseguiram reanima-la e depois lá chamaram o pai... eu acabei por ser a última a vê-la e a pegá-la!!! As coisas nem sempre são mesmo como imaginamos, independentemente do tipo de parto na verdade o que mais importa é tudo acabar bem!!!

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  7. Confesso que a cesariana também não foi o parto que idealizei, especialmente depois do trabalho de parto chato que tive, mas foi assim e o importante é que ela nasceu bem. Só é pena que tenham "desaparecido" com a tua filha. Eu já tive a sorte de a ter pele a pele comigo.
    Adoro a parte em que dizes qu sentes tudo na cesariana. Imagina o que é saberes os passos todos da cirurgia, e estares a sentir. Foi quase como se estivesse a ver :-)

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