Endo Quê?

12:40

Para mim, falar de maternidade não faz sentido sem começar do início. Sem falar da doença crónica que me acompanha há quase 20 anos e que muitas vezes me fez duvidar de que o sonho da maternidade seria uma realidade. Muitas pessoas ainda hoje, quando se fala de Endometriose, perguntam Endo Quê? Pois é, o nome é tão difícil de dizer como a doença é de viver. Hoje partilho convosco um texto meu que foi este fim-de-semana publicado no Blog Mil Razões...


Querida Endometriose, durante 14 anos levaste a melhor. Durante 14 anos deitaste-me ao chão. Durante 14 anos fizeste-me sentir um ser inferior, um ser incapaz. Fizeste-me duvidar da minha sanidade mental. Fizeste-me duvidar de mim, das minhas capacidades enquanto pessoa, enquanto mulher, enquanto ser humano. Durante 14 anos fizeste-me chorar em silêncio, muitas vezes sozinha. Fizeste-me desistir de sonhos, reformular planos, mudar de estratégias de vida. Mudar de caminhos. Durante 14 anos, fizeste-me acordar de noite, com dores insuportáveis e pensar que ia morrer de dor. Fizeste-me crer que não era possível alguém aguentar tanta dor, durante tantos anos, sem respostas. Durante 14 anos vivemos uma relação completamente injusta e desequilibrada. Tu conhecias cada pedaço do meu corpo, sentias o sabor das minhas lágrimas, ouvias o som dos meus gritos, estavas ali dentro de mim, a assistir na primeira fila, de sorriso nos lábios e a bater palminhas ao meu sofrimento. Lembras-te das muitas vezes em que só não cometi uma loucura porque simplesmente não conseguia andar? Durante 14 anos, tu sabias tudo de mim. Eu nunca tinha ouvido falar de ti! Achas isto justo? Chegares, apoderares-te assim do meu corpo e da minha vida sem pedir permissão? Sem te dares a conhecer? A mim parece-me extremamente injusto. Cruel. Desumano. Foste tão cruel comigo querida Endometriose que a única solução que tive foi fazer de ti a minha melhor amiga.
No dia em que ouvi o teu nome pela primeira vez, no dia em que soube que eras tu que habitavas dentro de mim e controlavas a minha vida, jurei a mim mesma que era o fim. O fim da tua glória sobre a minha vida. O fim do teu riso maléfico. O fim de uma relação desequilibrada. Hoje, trato-te por tu querida Endometriose. Continuas a fazer parte do meu dia, mas agora sou eu que mando. Agora sou eu quem decide o que fazer. Que caminhos vamos seguir. O teu tempo de rainha terminou querida Endometriose. Na minha vida mando eu. E queres saber o melhor? Os 14 anos que me roubaste já foram em muito compensados com o conhecimento que me trouxeste, com as amizades que cruzaste na minha vida e com os sorrisos que já partilhei por tua causa. Os 14 anos que me roubaste, não são nada perto da mulher guerreira em que me tornaste. Hoje, graças a ti, sou uma mulher completamente diferente. Querida Endometriose, mostraste-me que tenho uma força que desconhecia. Mostraste-me que por maior que sejam as batalhas eu posso vencer e sair de cabeça erguida, apesar das nódoas negras. Mostraste-me que nada é impossível e que eu posso ser feliz... ser uma mulher completa mesmo com uma doença crónica. Hoje o meu dia passa por te dar a conhecer ao mundo. Passa por te tornar tão conhecida que em breve não possas atormentar mais ninguém em silêncio. Querida Endometriose, ganhas-te muitas batalhas, mas a guerra venço eu, todos os dias, de sorriso nos lábios!

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1 comentários

  1. Fiquei de coração na boca por tanto me rever neste texto. So há 2 meses descobri porque sofro tanto, porque não há um mês em que, simplesmente, consiga levantar-me da cama no primeiro dia de menstruação...e agora, o porquê de não conseguir o meu tão desejado bebé...
    Não consigo entender como é que, em tantas consulta e tantos médicos, passou "despercebido". E agora? Ainda estou a aprender o nome, sei lá como lidar com o resto? :(

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